quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A ESPOSA DISSE AO MARIDO: - VOCÊ SABE QUE A AMA, SAIA COM A OUTRA... - José Alves Neto

Herdei uma insônia desde a época que estudava para o vestibular e o curso básico de Medicina. Durmo tarde e acordo por volta das quatro da manhã. Organizo o meu dia na mente, rezo o meu Pai Nosso, minha Ave Maria, o Santo Anjo do Senhor; benzo-me, bato os pés no chão e começo a minha labuta diária. Em uma dessas noites, acordei na madrugada, lembrando-me dos meus pais. Uma saudade imensa, fez com que rolasse um turbilhão de lágrimas de saudades, rolando de forma exuberante, pelas cascatas das minhas faces, não sabendo como contê-las.

​Eu e minha família, não morávamos em casa suntuosa, nem tínhamos condições financeiras que nos dessem folgas para compramos tudo que queríamos, mas, aquela casa simples era uma verdadeira mansão de amor e bilionária de carinho que meus pais, Expedito Nunes e Iraídes Nunes Alves, ofereciam-nos. Nossa casa poderia ser chamada de lar porque reinava a harmonia entre nós, era uma verdadeira redoma de felicidades. Esses fatos davam-me mais coragem de vencer e afeiçoar-me mais aos meus genitores. Mesmo, com as sovas que sofri da minha mãe que era rígida comigo e meu irmão, não eram suficientes, para nem sonhos, ter raiva do meu pai ou da minha mãe. Se apanhei muito, era porque deveria ter feito alguma coisa errada para que as merecesse.

Cuidei dos meus pais, até os últimos momentos das suas vidas, com a maior dedicação e zelo que poderia oferecer. Minha mãe, foi acometida de uma neoplasia maligna da mama que posteriormente fez metástases para os outros órgãos, necessitando de um cuidado mais de perto. Os últimos anos de padecimento, tive que dedicar-me mais a ela. Para tanto, pedi demissão, como professor da Universidade Estadual de Campina Grande e fui jubilado no curso de Direito, onde já estava terminando o sexto período. Fiz isso, pois, se hoje sou formado em Medicina, devo tudo, fora os meus esforços, aos meus queridos pais que atualmente moram no Oriente Eterno e que um dia, quando a minha alma se transportar para esse Oriente desconhecido, quero que a cegonha me coloque na mesma casa, com os mesmos pais que tive na Terra.

​Nessa hora de tanta saudade, lembrei-me de um artigo que uma esposa disse ao marido: - Você sabe que a ama, e o marido resolveu sair com outra mulher.

“Depois de 21 anos de casado, descobri uma nova maneira de manter viva a chama do amor. Há pouco tempo decidi sair com outra mulher. Na realidade foi ideia da minha esposa. “Você sabe que a ama”, disse minha esposa, um dia me pegando de surpresa. “A vida é muito curta e você deve dedicar um tempo especial a essa mulher”, completou ela.

A outra mulher a quem minha esposa estava se referindo, era a minha mãe, uma senhora viúva há 19 anos.

As exigências do meu trabalho e meus filhos faziam que eu a visitasse ocasionalmente. Nessa mesma noite eu a convidei para jantar e ir ao cinema. ”O que você tem? Você está bem?”, perguntou-me ela, após o convite. (Minha mãe é do tipo que uma chamada tarde ou um convite surpresa é indicio de más notícias). “pensei que seria agradável passar algum tempo só nós dois” respondi. Ela refletiu um momento e disse sorrindo: ”Isso ia me agradar muitíssimo!” Depois de alguns dias, eu estava dirigindo para pegá-la, depois do trabalho. Eu estava um tanto ansioso, uma ansiedade que antecede um primeiro encontro... E que coisa interessante... Pude notar que ela estava muito emocionada. Esperava-me na porta. Havia feito um penteado e usava o vestido que celebrou seu último aniversário de bodas. Seu rosto irradiava luz, como um anjo! Eu disse para minhas amigas que ia sair com você, e elas ficaram muito impressionadas... Comentou ela, enquanto subia no carro. Fomos a um restaurante não muito elegante, mas muito aconchegante. Minha mãe agarrou-se no meu braço como se fosse a primeira dama. Quando nos sentamos, tive de ler o menu para ela. Mamãe, que estava sentada do outro lado da mesa e me olhava fixamente, disse-me com um sorriso nostálgico nos lábios: “ Era eu quem lia o menu quando você era pequeno”. “Então é hora de relaxar e me permitir devolver o favor”, respondi. Durante o jantar tivemos uma agradável conversa. Nada extraordinário, só colocando a vida em dia. Falamos tanto que perdemos a horário do cinema. “Sairei com você, novamente, só se você permitir que eu pague da próxima vez”, disse minha mãe quando a fui levar em casa. Eu concordei.

“Como foi o encontro?” Perguntou minha esposa ansiosa. “Muito agradável. Muito mais do que eu poderia imaginar!” Respondi.

Dias mais tarde minha mãe faleceu de um infarto fulminante. Tudo foi tão rápido, que não pude fazer nada.

Depois de algum tempo, recebi do restaurante, onde havíamos jantado, um envelope com cópia de um cheque e uma nota que dizia: ”O jantar que teríamos, paguei antecipado. Estava quase certa de que eu poderia não estar ali com você e, por isso, paguei e quero que você vá com a sua esposa. Jamais poderá entender o que aquela noite significou para mim. Seja sempre assim. Amo-te!” Nesse momento compreendi a importância de dizer : “EU TE AMO”, e de dar aos nossos entes queridos o espaço que merecem. Nada na vida será mais importante que as pessoas que você ama. Dedique seu tempo a elas porque, talvez, elas não possam esperar. Reflita e veja como você tem dividido o seu tempo. Será que tem dedicado uma parte do seu tempo às pessoas que você ama? Faça isso antes que seja tarde demais... Elas poderão ensinar algo que você nunca pensou. Essas coisas, geralmente, dão uma quantidade enorme de prazer”. (É uma pena que não sei quem é o autor do texto para ficar mais fidedigno).

​Até hoje, não consigo esquecer o amor e a saudade dos meus pais. O tempo que morei com eles e mesmo quando eu tive que sair para ir morar fora, nunca faltaram momentos de encontros felizes para nós convivermos. Gostaria que eles ainda estivessem vivos nem que estivessem em cadeiras de rodas dando-me trabalho, eu gostaria de tê-los para ir tomar um chá, um café ou mesmo saíssemos para algum jantar fora e que eles fossem eternos, que egoísmo da minha parte.

Queria muito deixar essa mensagem aos mais novos, nesta vida que ninguém tem mais tempo para nada: - A vida é muito passageira e temos que convivermos mais com os nossos familiares. Lembre-se disto: “Para que correr tanto, se a sepultura nos espera parada?!”.

Sempre que a saudade dos meus pais me vem à tona, arrependo-me de não ter convivido mais com eles, no entanto, a beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Em quase tudo, temos que aceitar os desígnios da natureza. Sei que os meus pais não poderiam ser eternos para eu venerá-los, porque se isso acontecesse era uma forma de desintegrar a essência da vida. Mas, podemos fazer, dar, conviver, para esperarmos o nosso amanhã, até que o condor encantado venha nos buscar.

Concluo relevando a importância dos meus pais na minha vida, com esta estrofe do cego Aderaldo (Modificada):


Enquanto os meus pais eram vivos,
​Eu era um cego que via,
​Depois que meus pais morreram,
​Eu sou o cego sem guia,
​Hoje, não sinto falta da vista,
​Mas, sinto falta dos guias.



​(José Alves Neto Médico – Itaporanguense)

2 comentários:

jlsilva disse...

Belíssimo texto. Muito bonito também, DR SOUTO, o que você escreveu dias atrás sobre recordações que trazemos desde a infância. / Parabéns!

Miracema disse...

Caro José Luiz,

Realmente o texto é belíssimo, encontrei hoje na internet, por acaso.

abçs

José Souto