
Enquanto os religiosos comemoram São Jorge, nós do blog Miracema entrevistamos o professor, engenheiro, tendo trabalhado por vários anos na Universidade Federal de Viçosa e no Instituto de Laticínios Cândido Tostes (em Juiz de Fora), Frederico Siqueira Magalhães.
Frederico, em suas atividades voltadas à história, atua, ainda, como membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Nascido em Miracema, filho de um dos principais nomes da cultura local, Benedito Siqueira, está radicado há varios anos naquela cidade mineira, onde criou sua família e reside. Logicamente que trata-se de uma grande personalidade do meio acadêmico, muito respeitado até hoje, apesar de já estar aposentado da cátedra. Frederico é autor de alguns textos sobre a história de Miracema.
Em 2007 recebeu das mãos do prefeito Carlos Roberto Medeiros (PV), o título de Cidadão Ausente nº 1, representando um reconhecimento, do Governo Municipal, em nome dos miracemenses, de sua atuação pessoal e profissional fora de sua cidade natal.
1) A emancipação miracemense durou muitos anos. Muitos personagens forjaram esses momentos. Desses, qual o sr. considera de fundamental importância para o processo de separação? O que, de sua atuação, justifica a escolha?
No processo de emancipação de Miracema destacar um personagem, entre tantos, é tarefa difícil como a própria pergunta ressalta. O contexto da separação era formado por um conjunto de forças sociais que acabariam por gerar tensões cuja resultante final seria a ruptura. Citaríamos: a tendência do predomínio do urbano sobre o rural, a presença crescente de imigrantes italianos, libaneses, sírios com fortes inclinações para a indústria e o comércio, a notável produção cafeeira de Miracema, um dos maiores produtores do país, a voz dos poetas que sempre clamam por liberdade, etc.
Contudo, aponto Antônio Ventura Coimbra Lopes como fundamental. De perfil mais suave e discreto, tornou-se o candidato dos separatistas à prefeitura para o triênio 26-29. Eleito, estabeleceu a subprefeitura de Miracema, realizou obras que provaram a capacidade dos miracemenses de caminhar com seus próprios pés.
Sua convivência com Manuel Duarte, eleito governador nas eleições de 30,garantiria a certeza da Separação, frustada, na undécima hora, pelo movimento tenentista.
Nos novos ventos de 34, foi membro da comissão que formalizou com Ary Parreiras as exigências para a criação do município de Miracema. É o interlocutor, em 36, de Protógenes Guimarães nas tratativas para a instalação do novo município que ocorre no dia 3 de maio de 1936. Portanto, esteve sempre presente em todas as fases da campanha.
2) O processo de emancipação colaborou com a construção da nova cidade? Que aspectos marcaram o novo município e que ainda estão impressos nos dias atuais?
2) O processo de emancipação colaborou com a construção da nova cidade? Que aspectos marcaram o novo município e que ainda estão impressos nos dias atuais?
Durante a década de 20 o processo de emancipação de Miracema ampliou-se de forma constante, tendendo a atingir a maioria de sua população. Em paralelo, o distrito estava se tornando um dos maiores produtores de café do Brasil, fazendo com que muitos fazendeiros passasem a residir na cidade o que implicava em novas construções. Pode-se notar que grande parte de nossos edifícios históricos tombados foram construídos nos anos 20.
Instalado o município, agora livre e independente, sobrevem o golpe de 37 e a polaca de Chico Campos. O tenentismo, que sempre olhara "meio de banda" a separação, vê cair no seu colo o novo município. Altivo Linhares, o mais destacado lider civil revolucionário de 30 no Norte fluminense, governa Miracema até 1945. De certa forma, a história pregou uma peça nos separatistas.
O embate político entre os dois grandes lideres tornou-se inevitável, foi intenso e durou décadas.
Miracema, sofrendo com o declinio, cada vez mais intenso, da cafeicultura, conseguiu sobreviver com suas atividades industriais ( açucar,tecidos,bebidas) e comerciais, preparando-se, segundo o mano Mundinho, para a era do arroz, agora, com construções mais simples e tempos menos glamourosos.
Na atualidade, digo eu, o Noroeste fluminense tornou-se uma das regiões mais pobres do estado do Rio, e um tremendo esforço tem sido desenvolvido para recolocar Miracema no caminho do desenvolvimento. Mas parece que o velho zeitgeist ainda nos assombra.
8 comentários:
Sr. Bené era o homem da folia de reis, do boi-pintadinho, homem que lidou de verdade com a cultura de Miracema. Eu não conhecia seu filho, mas ele já falou comigo dele. Ele tinha orgulho dos filho, sempre falava neles, tem uma que chama Mariana, se não me engano.
A entrevista foi muito boa e o povo prrecisa saber do que foi nossa historia de mracema.
Quem foi Zeitgeist?
O professor Frederico é, antes de tudo, um grande e sábio homem. Entende seus alunos como seres passíveis de erros e possíveis para melhorar.
Grande Mestre!
Excepcional iniciativa deste blog. Parabéns pela série de entrevistas sobre a emancipação da terrinha. Lamento, apenas, que a liderança, o espírito democrático e pacífico e a dedicação do Cap. Ventura Lopes, o general da luta emancipacionista, não tenha sido, até os dias de hoje, devidamente reconhecida pelas autoridades de Miracema, por meio de uma justa homenagem a este político que dedidou boa parte de sua vida pública à causa da separação da Princezinha do Norte Fluminense.
Parece até que Miracema não valoriza a sua própria história.
Adorei a entrevista. Miracema tem uma bela história.
Fred, o craque também nos gramados. Um cara como você, doutor Frederico, jamais poderia fica longe da gente. Uma cabeça brilhante e um coração de ouro.
Tudo que vem de você, assino em baixo.
Parabéns pelo texto.
É uma pena vermos opiniões de anônimos. É tão fácil assinar... principalmente, se é uma opinião que é respeitada.
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